Na
Prateleira: Hermann Hesse, Clarice Lispector, Milan Kundera, Saramago, Rubem
Fonseca, Patrícia Melo, Fernanda Young, Mário Prata, Marcelo Rubens Paiva, Thiago
de Mello, Aluísio de Azevedo, Machado de Assis, Ganymedes José, Arlindo Machado e
muito +
Na
Vitrola: Oswaldo Montenegro, Nando Reis, Chico Buarque, Belchior, Gonzaguinha, Roberto Carlos, Ana Carolina, Renata Arruda, Renato Braz,
Cordel do Fogo Encantado, Antúlio Madureira, Zé Ramalho, Trio Esperança,
Enghaw, Los Hermanos, Legião Urbana, Ira, Angra e +
No
Cinema: Almodovar, J. P. Jeunet,Lars Von Trier,Paul Thomas
Anderson, Tood Solondz, Woody Allen, Abbas Kiarostami, Patric Leconte,
Mário Peixoto, Glauber Rocha,Nelson Pereira dos Santos, Jorge Furtado, Eduardo Coutinho, Marcelo Masagão,
Claudio Assis, Walter Salles e
+
Na
TV: Guel Arraes, Jorge Furtado, João Falcão, Claúdio Paiva, Adriana Falcão, Hans Donner, Dias Gomes, Manoel Carlos, Gilberto Braga, Ivani Ribeiro, Janete
Clair, Marília Gabriela, Regina Casé e muito +
"Deve de ser cisma minha mas a única maneira ainda de imaginar a minha vida é vê-la como um musical dos anos trinta"
(Legião Urbana)
E andávamos absortas com as mãos nos bolsos. Eu e minha sombra no chão. Foi quando avistamos uma pequena oca verde e branca. Na entrada, o aviso dizia: "Vendemos Sonhos". Nos olhamos incrédulas e um impulso nos fez adentrar o lugar.
As paredes reproduziam as cores da aquerela. Havia portas, muitas delas entreabertas. Por fim, uma afável vendedora nos conduziu a um portão de ferro atado a pares de correntes e cadeados. "Seus sonhos estão atrás dessa muralha. Ultrapasse-a e alcance-os", disse ela entregando-me um molho de chaves.
Abertos os cadeados, trancas e ferrolhos demos um passo à frente e um mundo novo se descortinou sob nossos narizes. Estavámos num banheiro e havia tintas amarelas em cima da pia. Caminhamos pelo corredor até chegar numa sala cheia de livros, discos de vinil e revistas já gastas.
Fomos até a cozinha. Um liquidificador barulhento triturava pedacinhos de banana, chocolate, leite e açucar. A bebida tinha gosto de afeto, tomamos dois copos e nos sentimos amadas.
Mais alguns passos e estávamos no quarto. No chão havia botas, botinas e coturnos. Numa gaveta de armário, uma figurinha amarelada estampava uma menina num lindo balão azul. Na parede, um mural de fotos destacava um pequeno cão dourado.
Do outro lado, um espelho quebrado refletia gotas cor-de-sangue no carpete. Foi então que percebemos o teto. Era todo vasado e dele vinham fios, cabos, lentes e microfones.
Nos aproximamos da janela e a vista era linda. Erguendo bem as cortinas vía-se o Cristo de braços abertos. Deitamos na cama, eu e minha sombra. Cruzamos os braços e dormimos juntas. Estávamos em casa, finalmente.
Ando lendo muito. Cada vez se torna mais complexo usar o tom coloquial. Sonho em versos, em rimas, em estruturas narrativas. Anoto recados telefônicos em linhas de subjetividade que confundem as pessoas e me é doloroso evitar tal delito. É, os livros estão a me fazer mal, estão me consumindo e pareço agora uma grande enciclopédia ambulante a falar como se as pessoas estivessem me lendo mas elas estão apenas me ouvindo e esperam que eu seja breve.
"...A cada ato enceno a indiferença..." (Legião Urbana)
Quero falar de casamento...Mas não de festa, vestido branco, Igreja e promessas falsas...A Kriska está melhor...Parece inacreditável mas até minha planta carnívora sente cólicas e fica temperamental uma vez por mês...Quero falar de casamento...Mas não de casa, filhos, contas a pagar...Tenho remexido em fotos antigas...O pior passado é o passado feliz...Você olha pra trás e descobre como o hoje é triste e sem melodia...Quero falar de casamento...Estou à procura de alguém que possa abrir potes de conserva e matar baratas pra mim até o fim dos meus dias...Quando eu penso que esse blog já me deu de tudo...Que está na hora de elaborar um post-requiem...Ele me vem todo faceiro e me abre uma nova janela...Cheia de música e poesia...fantasia e fascinação...Um verdadeiro Teatro Mágico...Quero falar de casamento...Ando em busca de alguém que que me traga chocolate todas as Páscoas...Alguém que me ajude a completar minha coleção de canecas...O outono tem muito a me ensinar...Serei atenta ao que ele me trouxer...Àvida por um sol opaco e uma brisa enfurecida...Quero falar de casamento....Preciso de alguém que possa fazer cócegas nos meus pés pro resto da vida.......
"...Pus em quase todo lugar a foto mais bonita que eu fiz..." (Los Hermanos)
"...A lágrima não é só de quem chora..." (Ana Carolina)
Chorei sem parar...Meus olhos arderam...O inverno já começa a despontar em São Paulo e minha garganta tem sentido isso de forma não muito agradável...Os problemas têm vindo me visitar...A raiz do meu cabelo tem dado sinal de alerta...O passado é uma fotografia com sorrisos e um cãozinho do lado...A Kriska anda triste, cabisbaixa, arisca...Nunca pensei que plantas carnívoras fossem assim sensíveis...Díficil ajudá-la quando não consigo dar a mão nem a mim mesma...Passado definitivamente não é Futuro...Esse ano não terei ninguém por perto pra me dar um ovo de páscoa...O tempo passa e as fotos vão ficando amareladas...Hoje teve macarronada aqui na República...Cada uma fez sua parte no preparo do jantar...Pra mim: as cebolas...Ralei todas...Chorei sem parar...Meus olhos arderam...
Viver é esperar. Esperar sem a menor previsão de quando, onde, como e porquê. Esperar cansa! Não que eu esteja com pressa, não é isso! Imagina! O problema é que tenho uma série de coisas a fazer e nunca sei se terei tempo ou se serei pega de surpresa deixando tudo inacabado. Diante da dúvida, prefiro sentar e esperar mesmo. Maldita espera! Sartre disse uma vez que o inferno são os outros mas eu me atrevo a discordar dele. O inferno é essa espera indeterminada. Se temos que morrer, que seja feito logo. Se a sina é viver, que nos façam imortais, ora essa. Só não nos deixem nessa expectativa inglória. A vida é uma enorme sala de espera e cada um tenta se distrair como pode. Ei, você, por favor, me passa essa revista?
Chego a um lugar familiar e avisto um grupo de seres humanos: eles brincam, nadam, sorriem, beijam e cantam. Em volta, flores, câmeras e passarinhos compõem o cenário harmônico.
Chego mais perto e olho de novo: eles brigam, afogam, choram, cospem e calam. E ao redor, espinhos, microfones e cobras venenosas interagem com a figuração decadente.
Sinto pena de todos eles. Ali acorrentados. Enjaulados como bichos num zoológico. Se mostram nojentos e escatológicos. Se vendem bons e belos. Se desvendam cruéis e torpes. Se revelam confusos e sonhadores. É gente de samba no pé, sorriso sincero, têmpero na panela e coração na boca. Me aproximo curiosa: eles somos nós.
"...Eu caminhava e fingia que conhecia as pessoas..."
E a vida parecia um deserto de acontecimentos...Eu acordava e pensava no que iria fazer para me distrair até que o dia acabasse...Ficava sentada vendo o tempo passar...Eu sorria pros meus melhores amigos mas nem lembrava o nome de cada um deles...Ligava o rádio pra fingir que havia gente dentro de casa...Não atendia o telefone porque ele nunca tocava...Eu torcia pra que o tempo passasse logo...Pra que a vida voasse...E ninguém daria pelo meu sumiço...Ainda acordo e penso no que vou fazer até que o dia acabe...Mas são tantos os afazeres que nem tenho mais tempo para ver o tempo passar...
"...Eu caminhava e fingia que o tempo passava..." (Nenhum de Nós)
Sabe quando você lê uma coisa em algum lugar e aquilo não sai mais da sua cabeça? Sabe quando os dizeres lidos ficam ecoando como um disco encalhado? Você toma o metrô ouvindo vozes internas repetirem tudo à exaustão. Você anda na rua e parece estar vendo tudo em outdoors. Tantas coisas importantes e urgentes para você decorar e seu "HD Mental" está ocupado com aquelas palavras.
Pois bem. São apenas cinco frases. Mas elas falam tanto, tanto que já há dois meses tento mastigar/digerir as idéias que vêm desse micro conjunto de palavras. Começo a reparar na estratégia do amor das outras pessoas e na minha própria. Vou dormir e sonho com um muro de tijolos tortuosos. Imagino a verdade andando absorta entre flores, alamedas e uma paisagem campestre. E ela assobia com as mãos nos bolsos olhando pássaros e bicicletas.
"A estratégia do amor me fascina. Abro os olhos. Só vejo um muro de tijolos tortuosos. Aquém dele é o lugar mais cômodo. Alêm, a verdade me aguarda distraída" (Luís Moura, trecho extraído do Blog "O Kitsch Alegre")
Essas cinco frases se repetem condicionadamente em minha mente há exatos sessenta dias. Escrever algo a respeito delas me é inevitável. Quem sabe assim, meu "HD" não fica liberado para o arquivamento de números de telefone, dígitos de contas bancárias, senhas de e-mails e letras de músicas que tocam no rádio? É, pensando melhor, me deixem com meus tijolos tortuosos mesmo e com a estratégia do amor que tanto me faz refletir.
A estratégia do amor me assusta. Fecho os olhos. Só vejo um muro de tijolos cenográficos. Aquém dele é o lugar mais lúdico. Além, a solidão me aguarda pacientemente. (Maíra Viana, trecho extaído do meu "HD Mental")
"...Por mais que a gente grite, o silêncio é sempre maior..." (Humberto Gessinger)
Eu falei pra ela: "só dois dedos"...As pessoas andam com a cabeça na lua e não escutam o que dizemos...Acho que ficam olhando pro nada tentando descobrir o sentido da vida...Digo isso porque eu também tinha esse hábito...Mas descobri o sentido da vida ja há alguns meses...O sentido da vida é realizar o sonho da casa própria...Pelo menos, esse é o sentido da minha vida...Me aconselham muito a ouvir as palavras de Deus sobre o sentido da vida...O problema é que ele não fala comigo...Se ao menos ele espirrasse...Já seria um sinal...Eu lembro que eu falei pra ela exatamente assim: "dois dedos e nada mais"...E ela sorriu e até comentou: "isso parece título de música...ja ouviu aquela do Guilherme Arantes?"...Eu ja tinha ouvido mas mesmo assim ela fez questão de cantar pra mim...E, no final, disse: "prontinho, quatro dedos"...E lá se foi metade das minhas
madeixas loiro-paquita no piso do salão...
Comprei 4 cuecas pra mim...duas brancas, uma azul e uma preta...É, fui às compras hoje...No carrinho, além das cuecas, havia creme de barbear, gillete, um frasco de desodorante Axe e outras coisas de meu uso pessoal....É isso mesmo...Estou abandonando esta vida e esta pessoa que sempre fui...Enjoei de mim...Quem cruzar comigo vai até perceber a
metamorfose acontecendo no meu jeito de andar, de vestir, de falar...A partir de hoje passarei a fazer xixi em pé, andarei com camisinhas na carteira, farei uso da expressão "ai, meu saco" e o melhor...resolverei todos os meus problemas no braço...
"...Do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo..." (Raul Seixas)
"...Pegar carona nessa cauda de cometa, ver a Via Láctea e a estrada tão bonita..."
Eram os útimos envelopes que ainda estavam à venda...Comprei todos e corri para casa..Fui abrindo um por um...E nada..Que tristeza...Só restou um ainda lacrado...O derradeiro..Fechei os olhos e fui rasgando a pontinha bem bevagar..Vibrações e fluidos positivos...Torcida, expectativa além do alcance...Eu tinha onze anos e vestia calça azul e blusa Hering...Sentada no chão do quarto, eu fixava o pensamento na única figurinha que faltava para completar meu álbum...Era a Simonny voando num lindo balão azul...Meu sonho era viver a vida dela...Abri lentamente...Coração na mão...E tcham, tcham, tcham, tcham...Era o Jairzinho andando de skate...Até hoje eu lembro desse dia...Tenho vinte e sete anos e visto uma calça jeans e um moleton do Mickey....Tenho um álbum de figurinhas incompleto num fundo de gaveta....E meu sonho é viver a minha própria vida....
"...Brincar de esconde-esconde numa nebulosa e voltar pra casa num lindo balão azul..." (Guilherme Arantes)